Aprender a ler e a escrever é uma aprendizagem básica fundamental. Uma aprendizagem que requer muitas outras aprendizagens e domínios.
Considero que antes de aprender a ler material escrito, a criança precisa de aprender a ler o mundo à sua volta e aprender a lidar com o seu próprio mundo interno, onde as emoções e a interpretação da sua existência vai ganhando forma progressivamente.
Assim, torna-se primordial apostar na estimulação da capacidade de observação e de análise das crianças, antes de tudo o resto. E analisar passa por dois conceitos básicos: diferenças e semelhanças. Estes dois conceitos podem ser estimulados das mais variadas formas, com os mais diversos materiais e com diferentes estratégias. O material escrito constitui também um ótimo recurso para estimular a capacidade de observação e análise.
Podemos criar atividades que estimulem esse contacto com a escrita de uma forma orientada e estimulante promovendo, não só uma crescente consciência linguística, como a apropriação de conceitos básicos, relacionados com o domínio da leitura e da escrita.
A concretização dessas atividades estimuladoras da apropriação do domínio progressivo da leitura e da escrita deverá ser sustentado pelos princípios gerais de qualquer aprendizagem: partir do geral para o particular, do concreto para o abstrato, do que é próximo e vivencial para o que está para além de nós. A aplicação destes princípios implicam um conhecimento prévio dos interesses e gostos da criança, das suas capacidades e potencialidades, das suas caraterísticas pessoais e das suas áreas menos desenvolvidas.
Quando se trabalha com crianças e jovens com necessidades educativas devemos ter presente que as propostas de atividades e os materiais pedagógicos que lhes apresentamos são fatores cruciais para o desenvolvimento das aprendizagens.
A estruturação das tarefas, duração e motivação pelas atividades propostas são fatores tanto mais pertinentes quanto maior for o grau de dificuldade em aprender presente, ou seja, quanto mais dificuldades em ler o mundo e se apropriar da escrita, mais estruturadas, mais orientadas, mais curtas e mais motivadoras devem ser as tarefas de aprendizagem sugeridas. As cores, os materiais manipuláveis e a ligação com o vivencial ganham ainda assim maior sentido para os alunos com necessidades educativas.
É preciso compreender o mundo concreto e só depois o mundo da representação. A escrita é uma representação, logo vem depois do mundo concreto. Uma das tarefas fundamentais para a aprendizagem da leitura e da escrita é a compreensão de que a fala, de que a linguagem que usamos para comunicar com os outros pode-se traduzir na escrita, ou seja, pode-se escrever o que dizemos. Muitas crianças são forçadas a iniciar a aprendizagem formal da leitura e da escrita sem ter o domínio desta consciência, infelizmente, o que pode tornar esta aprendizagem, tão importante e tão básica, um exercício massacrante.
Nesta sequência, escrever o que as crianças falam, à sua frente, fazendo-as acompanhar essa tarefa, fazendo-as perceber que a caneta que estamos a utilizar está a desenhar, a representar, a traduzir para o papel o que a criança está a comunicar é fundamental para o desenvolvimento da compreensão leitora dos nossos alunos. Levar as crianças a descobrir a escrita no meio envolvente e as suas diversas funções é um caminho frutuoso neste processo de aprendizagem. Olhar com atenção para a presença de escrita no nome das ruas, nas placas com os nomes das terras ou organismos e instituições numa cidade, a escrita presente em todos os produtos que adquirimos no nosso quotidiano. Questionar as crianças sobre a função desses escritos ou do porquê, do que para que servem essas informações escritas, presentes em todas as nossas rotinas diárias vai estimular a curiosidade e a capacidade de atenção ao que rodeia a criança, ajudando a estruturar a sua organização interna e o seu pensamento, trazendo muitos benefícios num futuro próximo, prevenindo obstáculos neste campo tão sensível.
Mesmo quando as crianças não produzem um discurso oral funcional em termos de comunicação é possível trabalhar com a escrita. Algo que todos dominam é o seu nome próprio, mesmo as menos capacitadas. Trabalhar a partir do nome próprio é um bom começo. Ir alargando para os nomes das coisas significativas e comuns na vida quotidiana: os alimentos, os objetos, os animais, etc, pode ser um percurso gratificante de tomada do conhecimento na aprendizagem progressiva da leitura e da escrita para os alunos com necessidades educativas. As atividades de pré-leitura e de pré-escrita, a par do desenvolvimento da consciência linguística e do desenvolvimento dos comportamentos emergentes de leitura podem constituir uma forma produtiva na iniciação deste processo.
É importante criar atividades lúdicas com a escrita. É fundamental que se apropriem das noções de texto, frase, palavra, sílaba e letra, através da manipulação desses elementos. Isso pode-se fazer muito antes da aprendizagem formal da leitura e da escrita.
Ascensão Calado





































































